Depoimentos

“A Mae, personagem da Fernanda D´Umbra, vem para a frente do palco. Acende um foquinho nela, que ilumina quase que só o seu rosto. Ela diz um verso do Maurício Arruda Mendonça: “Solidão é um método maluco de saber quem tá dentro de você. Quando a cidade inteira te odeia”. Entra uma música linda. O foquinho sai, dando lugar a um corredor de luz no qual a Fernanda começa a jogar uma amarelinha imaginária. Essa é a epígrafe de Postcards de Atacama, uma das peças do Marião Bortolotto que mais gosto. Triste, profundamente triste, mas também engraçada (“rio e também posso chorar”, como canta o Macalé, num momento da peça). Além de tudo, tem uma cena da Fernanda com o Nelsinho Peres que tá no topo da minha galeria de cenas antológicas do Mário. Nelsinho vociferando que continua “não cumprindo promessas de parar de fumar, que continua não tomando café solúvel” enquanto a Fernanda dança fudida e enlouquecidamente um AC/DC. Hoje e amanhã, no CCSP, Sala Jardel Filho, dentro da Mostra Cemitério de Automóveis“.

(Marcelo Montenegro)

“Na verdade essa cena não está no texto original. Eu escrevi depois e chamo de apêndice do texto. Lembro quando escrevi essa cena. A gente tava no Rio de Janeiro apresentando justamente “Postcards de Atacama” e eu ficava achando que faltava alguma coisa, como se eu não tivesse bebido a dose fatal, sabe como é? E aí ficava aquele sujeito pendurado pelo pescoço, mas ainda sorrindo tirando uma na cara do carrasco. A gente fazia temporada da peça numa salinha pequena do Carlos Gomes que o Roberto Alvim gerenciava. A gente não tinha dinheiro pra porra nenhuma e ficamos hospedados na casa de uma amiga. Lembro que o Wiltão dormia numa rede no meio da sala. E eu tava com essa idéia na cabeça, me atormentando. Então sentei na mesa da cozinha e escrevi essa cena. Chamei a Fernanda e a Joeli e pedi pra eles decorarem. Disse pra eles: “Vamos montar essa cena e colocar na peça hoje à noite”. E foi assim. A gente montou a cena na sala daquela casa no Rio de Janeiro numa tarde de domingo, se não me falha a memória. É também uma das cenas que mais gosto entre todas que escrevi. Às vezes a gente acerta. E você tem certeza que acertou, mesmo que o mundo inteiro diga o contrário. Mais ou menos o que o Maurício escreveu, né? (…quando a cidade inteira te odeia).

Tem dias que eu envelheço tanto que mal consigo levantar da cama. Já pensei em escrever o meu testamento. Sei pra quem deixar o pior de mim”.

(Mário Bortolotto)

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