Depoimentos

Do blog “Bar 1211!”

As palavras do Adilson Thieghi.

“…

TALENTO, ARTE E A VIDA, VINTE ANOS DEPOIS…

É próprio de quem chega nos 30 começar a sentir saudade  “dos velhos tempos”. Que dirá aos 40  ! Os amigos que não se vê mais, as loucuras dos tempos de faculdade, os  porres, os amores  (que com o teempo se confundem na memória), tudo ganha uma  certo verniz romântico quando comparado ao presente, principalmente se ele não honrou  às expectativas do passado.

Tanto pior se você era uma jovam promessa do teatro que acabou fazendo stand up em barzinhos e se seu melhor amigo  era um  dramaturgo de talento que  bebeu e cheirou tudo,inclusive o talento.

O que sobra senão o orgulho (com uma ponta de rancor) e a saudade? O orgulho de ter tentado, de saber que se tem talento, de ter passado o pão que o diabo amassou pra provar seu valor, ainda que poucos tenham reconhecido. E a saudade das madrugadas lendo John  Fante e Bukowski, enchedo a cara e azarando as garotas. Bons e velhos tempos, melhores ainda se comparado aos de hoje, com essa garotada que só conhece aquilo que está  ao alcance dos primeiros resultados do Google.

Explico-me,agora: este não é um texto confessional, mas o coração da excelente, engraçadíssima ,terrivelmente melancólica (e ainda assim otimista) peça Corações Under Rocks que está  em cartaz no CCSP Sala Paulo Emilio Salles Gomes (100 lugares) até  06 de março às sextas e sábados, às 21h  e aos domingos, às 20h – Ingressos: R$10,00 (retirada de ingressos: duas horas antes de cada sessão)…”.

Do blog  ” Quem tem teto de vidro… 

“… Corações under rock: diferenciando as safras

Primeiramente temos de dar graças a Deus por alguém, no caso, essa turma de artistas de Londrina, terem tido a força de produzir, e nos transmitir alguma coisa que seja através do veículo poderoso que é o teatro. Certos temas que eles pesquisam são tão absorvidos pela cena de palco, que o teatro os devolve ao público sob formas simbólicas que, no caso dos artistas de  Londrina, como Márcio Américo, nos fala de modernidade, do tempo,  dos loosers da noite e, principalmente, da amizade, e, essa, a jóia que os textos deles nos oferecem.
A amizade é um tema caro aos beatniks. Foram eles que influenciaram alguns dos  importantes artistas dos anos 80. Essa época, devo confessar, porque também fui dessa geração, foi muito brega. As roupas, o cabelo feio, como dizia Dercy Gonçalves a respeito do problema, tornaram essa fase desinteressante, exceto por uma  coisa: pelos livros que a Companhia das Letras publicavam. Circo de Letras foi uma coleção muito importante, e nós podíamos tomar contato com autores como Walth Withmann, poeta árcade norte-americano, Laurence Ferlinghetti, Kerouac, Sam Sheppard, Corso, Piva, e todos esses caras que fizeram a nossa cabeça, entre elas, a de Márcio Américo.
E o tema de Corações under rock é a amizade.  A peça obedece estritamente à regra do drama horaciano, que se realiza por séculos: ensinar enquanto diverte. Brecht “modernizou” essa regra, ele disse que a função do drama é “ensinar divertindo”,  pra você ver …A função do drama, portanto, é algo orgânico da dramaturgia, intrínseco a ela, quer seja intencional ou não, e que caracteriza a boa peça de teatro.Ensinar divertindo. E ensinar que “a amizade é importante”, sem ser chato, é uma coisa que o Márcio Américo fez nessa peça, e sua segunda virtude.
A gente pode até falar que Márcio Américo fez gracinha. Mas aí o público ri, e relaxa a mente, vai sendo minuciosamente embromado, para entrar no espírito da peça, e quando nós nos damos por nós mesmos estamos sensivelmente tocados pela amizade dos dois personagens do texto . Ele nos divertia facilmente sim, mas nos guiava o caminhar, e quem guia o caminhar é o pedagogo, ou aquele que guia o caminho. Viu, a peça do Márcio Américo é genuína dramaturgia. Ensina divertindo. Eu não vou contar a história, mas é sobre um looser imerecidamente looser, porque é um bom autor, e seu amigo stand up comedy.
A gente pode até criticar, pô, então fala sobre temas importantes, escreve uma tragédia aí. Não foi o caso. Ele não quis falar sobre isso. O tema é a amizade numa comédia leve, cuja palava mais difícil é “James Joyce”.
Mas eu queria falar mesmo é da direção. A Lúcia Segall, nos anos 80, fazia experimentações dramáticas no Cpt de Antunes Filho, fazia lá seu trabalho de formiguinha,  como diz o Antunes. E essa experimentação amadureceu. Ela não é minimalista, pelo menos neste espetáculo, mas a gestualidade e as marcas que ela aprova são suficientes para dar vida aos personagens de acordo com o mundo em que eles vivem, e mais do que suficiente não é necessário. A direção, racional, limpa, econômica, a pontuação na sonoplastia, a luz, nada incomodava por estar sobrando, mas tudo ali era preciso. Enxuto. Isso requer pulso de diretor.
Os atores fizeram um teatro naturalista condizente com o espetáculo, e o corpo deles, mais uma aprovação feliz da Lúcia Segall, traduzia os momentos certos. Destaque para uma dança pequenina do pé de Nelson Perez, quando mente que conseguiu um contrato na televisão.
Esse espetáculo,  se for visto como produto de uma geração de artistas de Londrina, pode ser apreciado com maior sabor, como a gente aprecia aquelas safras maravilhosas de vinho. Cada safra diferente da outra, é bom pra conhecer”.

(Márcia Medina)

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