Por Sergio Mello

Sergio Mello

“ Aos ossos que tanto doem no inverno ou aos que brindam suas perdas consideráveis

Escrevo no quarto mal iluminado do apartamento de um amigo. Sempre quis começar um texto assim, descrevendo meu posto, como nas cartas. E minha afeição por malucos que cruzam desertos arrastando suas valises ressecadas, no fundo, me levava a crer que um dia eu o faria; só que da mesa de um café em Praga, pra fazer sentido, ou Moscou. Mas não: ainda é São Paulo por aqui, cidade tão bela quanto uma mulher maquiada sob a chuva.

Tô tentando escrever algo sobre Aos ossos que tanto doem no inverno, meu texto de estréia em teatro. Confesso que não me sinto nem um pouco à vontade: não encontro um jeito nessa cadeira nem na vida. E é tanto que, nos últimos dias, minha cabeça tem preferido torneiras a travesseiros.

O que posso dizer? Que é sobre um assaltante que vai ao encontro da vítima pra devolver-lhe a carteira?

Após uma leitura realizada no MASP, ano passado, um espectador me perguntou por que esse título se os personagens estão na faixa dos quarenta e poucos de idade, ou seja, ainda novos, segundo ele, pra sofrer de males comuns à velhice. É uma homenagem aos que brindam aniversários de suas perdas consideráveis, depois seguem como podem, alongando-se no ônibus pra fechar a cortina da janela do vizinho sem pedir licença. Mas não respondi isso a ele, não achei que era meu esse dever.

Embora tenha sido escrito em duas noites (com um longo intervalo entre uma e outra), o mais trabalhoso no texto foi, depois de pronto, ir trocando os nomes dos personagens, linha por linha, porque até então eles se chamavam Mário e Nelson. Será que ainda preciso dizer que o escrevi pra esses dois atores sensacionais? Se no futuro outros atores quiserem montar, que fique bem claro: estarão se casando com uma mulher com o nome de outro tatuado na nuca.

Aliás, esse texto, provavelmente, estaria repousando na pasta Coma Induzido do meu micro, em meio a embriões poéticos, próximo à frase Abri a janela pra que a mosca pudesse sair (que atribuo ao começo de um romance que nunca avançou e nem vai), não fosse um filme de David Mamet. Não que David Mamet tenha alguma relação com o que você verá. É que foi ele quem me alertou sobre o poder curativo dos ventos.

Agora são quase cinco. A cafeteira bufa de cansaço. Lá fora, o atrito dos pneus dos carros com o asfalto resulta num som aveludado, quase agradável. Estão todos no teatro ensaiando sob a direção da grande Soledad Yunge. Faltam poucos dias para a estréia. E já não passam carros. Ouço um Chet Baker vindo de algum lugar. Deve ser de lá. Eu acredito nisso. É o poder curativo, você sabe”.

(Sergio Mello)

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