Depoimentos


Aos ossos que tanto doem no inverno… Doeram não apenas os ossos. Ao término do espetáculo, saí com o coração explodindo e acompanhada por uma sensação de impotência diante da real possibilidade de vidas solitárias, que se mantém através de trocas vampirescas de dor. Doeu o estômago, doeu a alma. Foi difícil me distanciar do espetáculo e apenas apreciar suas formas, seus tempos precisos, suas dinâmicas em ondas. Nem mesmo a música do Chet Baker trouxe conforto. Estava ali dentro, com aqueles dois homens que podiam ter tido uma vida, qualquer vida, mas escolheram aquelas, as mais tristes, patéticas, caóticas; a inconsciência da crueldade de seus jogos parecia aprisioná-los em uma dimensão de fantasias ora ingênuas, ora agressivas. Parabéns, Nelsinho, Mário, Sérgio, Soledad e quem mais tenha coloborado na realização do espetáculo: vocês me envolveram. Um beijo grande, Bett

(Bett Just)

 

Aos Ossos

Entramos no teatro deparando nos com um Mário Bortolotto parado no centro do pequeno palco em arena segurando uma espingarda nas mãos (espingarda? rifle? Sei lá qual seria o termo correto). É claro que todo o clima do que assistiremos logo a seguir está contido naquela sua posição e sentimos todo o seu impacto nos segundos imediatos de nossa entrada. Não é portanto nenhuma surpresa quando o conflito explode logo no início da peça. Chico resmunga, olha para baixo, dá alguns passos nervosos para um lado, outro para outro, a campainha toca, uma descarga elétrica parece percorrer seu corpo, ele se posiciona em frente à porta,arma em sentido, e manda entrar. Nelson Peres entra, pessoa comum, forte tique nervoso com a cabeça, assusta-se com a arma, Chico parece paranóico, parece que vai atirar, grita ordens contraditórias, Nelson grita que não está armado, levanta e abaixa as mãos, só viera devolver a carteira que acabara de roubar de Chico.

Ao Mário grandalhão e potencialmente perigoso contrapõe-se um Nelson fraco, temeroso e desarmado. Mas ele viera devolver a carteira! Sérgio Mello nos enreda e nos joga no meio desse turbilhão onde o aparentemente comum é falso, os papéis reais são invisíveis a primeira vista, e a ligação entre estes dois homens é dolorosamente muito mais profunda do que se poderia supor.

Sérgio Mello monta seu texto nos moldes de um teatro clássico (do tipo de um Tennessee Williams, por exemplo) onde a primeira situação é o mote para que, durante o desenvolvimento da narrativa e através do envolvimento dos personagens, sejam feitas as revelações e as descobertas que darão um viés completamente surpreendente do que foi mostrado anteriormente. Ao término, as veias estão abertas, os ossos estão expostos, a verdade culmina, revirando por completo a vida e a existência dos personagens. E, espera-se, a do próprio expectador.

Esta estrutura, devo dizer, é fácil de ser reconhecida e é um tanto quanto comum. O que surpreende, até choca, é a força e o domínio que Sérgio Mello consegue imprimir neste seu texto. Talvez bobagem minha, reconheço. Quando soube (desde o ano passado) que Mário Bortolotto e Nelson Peres estavam neste projeto, não havia dúvida que só poderiam estar metidos em um trabalho no mínimo muito bom! Mesmo assim, reconheço e assumo que não esperava que o resultado fosse tão extraordinário. Sergio realmente domina a narrativa, pausas e falas e frases e cenas e encaminhamentos, auges e clímaxes como deveriam ser. É de tirar o fôlego.

Espero que, depois de ter dito isso, tenha a liberdade de colocar um pequeno senão. Não tenho nada definido, provavelmente é só rabugice minha, portanto não deve ser levado à sério. Há alguma coisa faltando. Algo que dê o vigor vital aos seus personagens ou que dê o embasamento pleno às suas histórias. O  algo  que saia dos limites dessa sua estrutura muito bem montada, que extravase. A culpa por esta minha expectativa é toda sua, Sérgio, porque agora sei que você é capaz de realizá-la. E por causa disso estou bem ansioso para conhecer seu próximo texto.

Com Mário Bortolotto e Nelson Peres não há surpresas. Dois atores extraordinários, perfeccionistas e emocionantes em sua arte. A força de sua atuação é tanta e tão poderosa que não vou tentar exprimi-la em palavras. Só gostaria de destacar dois momentos que, para mim, marcou muito: a cena da risada de Nelson. Longa, profunda, pulsante, que cresce e permeia-se de choro, graça, histeria, dor e diversão. Penetra pela espinha. Uma risada que poderia descambar fácil para a caricatura ou (se mau feita) para o puro constrangimento. Na interpretação de Nelson Peres é perfeita (mais tarde, ele me contou o quanto foi difícil, trabalhosa e trabalhada esta risada, para atingir o ponto que é mostrado em cena; tive, assim, um vislumbre do que deve ter sido o trabalho dessa diretora, a Soledad Younge, e da dedicação destes atores).

O outro momento é o choro de Chico. “Aos Ossos…” ficará presente para mim como a peça que me mostrou o personagem mais frágil de Mário Bortolotto. Fragilidade, sim, um personagem perdido e sem rumo, um tremendo toque de humanidade. 

Há mais um lance. Este, porém, diz respeito somente a quem esteve na mesma sessão que eu assisti, do dia 21 de março de 08. E poucas pessoas devem ter percebido ou prestado atenção. Eu percebi por que estava sentado diretamente em frente e podia ver muito bem seu rosto. Era uma senhora que, por várias vezes, acabou distraindo minha atenção da peça. Estava acompanhada por um senhor (imagino que o marido) e um rapaz (imagino que o filho) e dava toda a impressão de que não só não era acostumada a ir ao teatro, como provavelmente nunca tinha chegado perto de peças daquele tipo. Houve momentos que pensei que ela teria um ataque do coração. E foi em progressão. Seu rosto expressava tudo e devo dizer, e pedir perdão à tal senhora se algum dia tiver oportunidade para isso, mas foi engraçadíssimo. Começou com uma certa descrença do que estava vendo (algo do tipo “isso não pode estar acontecendo”), passou para a surpresa (“isso está realmente acontecendo!”), para o nojo (eu vi explicitamente o rosto pleno de nojo), à ansiedade apoplética (“ele vai matar o outro??” “ele vai matar o outro!!”) (“ai, meu deus! ai, meu deus!”), até o riso aliviante e aconchegante (durante os momentos de humor na história). Uma pena que, no final, eu acabei me distraindo durante os aplausos e quando prestei atenção ela já tinha ido embora. Queria muito ter visto seu rosto e ver se havia alívio pela peça ter acabado, exultação por ter sobrevivido ao martírio ou determinação de nunca mais fazer isso de novo.

(Claudinei Vieira)

 

 

Aos ossos que tanto doem

Voltei depois de anos ao Ruth Escobar e não imaginava a decadência. Fisicamente, pouco mudou, mas o espírito é outro, como é outro o entorno do teatro e, creio eu, boa parte do Bexiga. Tem cada vez menos criança nas calçadas, a vida em comunidade vai sumindo do bairro, parece.

No teatro, fora os mendigos que te cercam na escadaria ao lado, que desce para a 13 de Maio, e os guardadores que te cercam na frente, a livraria estava fechada, o elevador para deficientes, fechado, pouca gente na administração, muitos seguranças, as coisas pareciam todas meio estranhas.

Nas peças em cartaz, aos montes pelas paredes, mais estranhamento. Um “Arena Conta Zumbi”. E uma comédia com o ator pornográfico Mateus Carrieri, “O Amante do Meu Marido”, que promete nudez e piadas sobre homossexuais. Aos poucos, lotou de gente para ver.

Espalhados para distribuição, exemplares do tablóide do sindicato dos artistas com capa para o secretário de cultura de Presidente Prudente.

E no meio de tudo estava a nova peça de Mário Bortolotto, como ator. Ele parece buscar ambientes assim. Não está mais na praça Roosevelt das colunas sociais, mas ali, na sala menor do Ruth Escobar, com seu público tão diferente daquele que havia lotado, aos poucos, o saguão do teatro.

E é de amor que ele fala, de novo, flor no pântano, escorrendo. “Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno” é de Sérgio Mello, a direção é de Soledad Yunge, mas o universo em cena, até onde vai minha experiência, é aquele de Bortolotto, que conheci um pouco mais em “Uma Pilha de Pratos na Cozinha”.

Com armas na mão, ameaçadores um com o outro, violentos, os dois personagens da peça, homens duros, “imperdoáveis”, se dissolvem ao recordar (…). Solitários e impenetráveis, aproximam-se pela mesma tragédia. É bonito”.

(Nelson de Sá)

 

 

“Há umas duas semanas eu finalmente fui ver “Aos ossos que tanto doem no inverno”. Bom, todos os que lêem esse blog sabem que só por ser a primeira peça do Sérgio Mello que entra em cartaz, só por ter direção da Soledad Yunge e só por ter no elenco o Nelson Peres e o Mário Bortolotto, já se torna imperdível.
Era uma Sexta-feira, feriado, e havia sido um dia difícil para mim e para Jesus. E eu sabia que essa peça não facilitaria nada para mim, ela poderia destroçar o pouco do homem que havia entrado na sala Miriam Muniz.

Me enganei redondamente. Mas não porque o texto seja de uma alegria inenarrável, não porque a direção seja leve e feliz como uma lagarta correndo sobre a água e muito menos porque os atores sejam bonitos e alegres, mas porque é um puta trabalho bem feito. E isso faz com que a gente saia de uma sala de espetáculos de bem com o universo maluco que habita nossa própria cabeça. Depois de ter visto tanta peça BOSTA, ver “Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno” é voltar a acreditar que o teatro de verdade, aquele em que Dramaturgos escrevem, atores atuam e diretores dirigem, tudo em função de uma história, de uma narrativa, ainda existe e, apesar de não ser festejado como deveria, está melhorando cada dia mais.

Vou me reservar o direito de falar da peça nos detalhes, então, quem não viu e não quer saber o final, ou o que acontece, pare por aqui e volte a ler depois que assistir. Quem não se importa, fique a vontade.

Texto.

Se há uma palavra para definir o texto do Sergião é Sofisticação. Sim, porque ele não fica atrás de nenhum outro dramaturgo. Ele sabe conduzir uma trama de forma em que ela parta de uma situação impensável, tome rumos improváveis e termine de forma fechadinha, sem nenhuma aresta ou pendência. E o melhor, você consegue pensar sobre a peça, você percebe que aqueles dois sujeitos, que iniciam a peça numa situação insólita – um ladrão que pede para devolver a carteira da vítima, e que só não o matou porque não teve coragem – nos fazem descobrir, através de diálogos sutis e de momentos de extrema porrada lírica, que se fuderam mutuamente, que acabaram um com a vida do outro por causa de uma mulher que nunca está presente e que só se faz existir por uma foto na própria carteira. E o Sérgião ainda consegue fazer tudo isso colocando conversas que supostamente seriam banais, como a morte de Chet Baker ou a vida dura dos artistas, como metáforas da própria história desses dois homens. Talvez nem como metáforas, mas como complementos talvez.

Atuação.

Conheço Mário Bortolotto, Nelson Peres e seus trabalhos há muito tempo. E se há uma coisa que os dois fazem bem é se entregar. Eles se entregam completa e totalmente aos personagens… eles conseguem algo raro hoje, mas comum entre atores veteranos, experientes e principalmente que já apanharam muito, que é transformar rubricas em sensações físicas. Nessa peça, por exemplo, os personagens não se mostram quem são só pelo que falam, mas fisicamente eles são verossímeis. Quando Nelson Peres diz que não teve coragem de matar o Mário, seu corpo comprova isso, e ainda reverbera por muitos minutos como se uma simples declaração agisse como uma pedra jogada no lago. E o Mário também mostra essa entrega quando consegue sair momentos de extrema fúria com direito a perdigotos para um estado de total inércia… sem nem ofegar, e no momento seguinte soltar uma piada. E sabe o que é pior? Eles fazem parecer que tudo aquilo é muito simples de fazer.

Direção.

Já se falou muito disso, mas vou chover no molhado. A direção de Soledad Yunge beira a perfeição por um único motivo, a tal da direção invisível. Seria fácil pensar que o Mário e o Nelson tão fazendo o que eles querem no palco, e que a maneira como o cenário foi colocado no palco, ou ate mesmo as sutis variações de luz é tudo impensado e feito na hora… e esse é o ponto. É fácil pensar porque não se vê a direção. Soledad trabalha – é um alívio dizer isso – em função do texto e das atuações, com o cuidado de manter durante os 60 minutos de espetáculo uma tensão no ar, mas não uma tensão Fátima Toledo, em que os personagens jogam ping-pong com as frases e ações, mas uma tensão suave, que por ser suave pesa mais do que qualquer coisa te fazendo a participar daquela história, a se ver ali, na companhia daqueles dois homens naquele momento crucial de suas vidas.

Conclusão.

Ah, como é bom ver uma peça boa.

E seria bom se muita gente que trabalha com teatro pudesse descer de seus pedestais, sair de suas salas de ensaio e ir lá ver essa peça. Autores, atores, diretores, gastariam 60 minutos, mas ganhariam uma bagagem inestimável para a vida toda. Eu ganhei, principalmente o alívio de saber que está começando algo que poderá me fazer sair de casa mais vezes sem receio de pisar num teatro.”

(Paulo F)

 

 

A POEIRA QUE VEM DOS OSSOS

O poeta Sérgio Melo é um poeta/dramaturgo que age como se fosse um fotógrafo do cotidiano, mas sua fotos ampliam, junto com detalhes aparentemente comuns, dores ocultas.

No espetáculo Aos Ossos Que Tanto Doem No Inverno,Sérgio, além de discutir as conseqüências destruidoras de uma perda, faz uma puta présa poética ao inserir estes slides do cotidiano na fala de seus personagens.

Um dos personagens diz dos “ruídos do casamento”, estas pequenas coisas que podem detonar ou fazer perdurar um relacionamento: uma tampa do vaso sanitário baixada com violência, o banho demorado e ruidoso, a respiração ofegante durante o sono, a forma como ela enfia o pão dentro do pote de manteiga, chinelos… todos estes ruidinhos tem três estágios. Primeiro estágio é a surpresa, é quando eles começam aparecer e são bem vindos, são como uma descoberta, eles são conseqüências de um avanço em sua vidinha, uma nova relação, uma nova casa, uma nova chance, você começa a perceber uma nova escova de dentes no banheiro. Num segundo momento estes ruídos passam a ser infernais, são eles os primeiros a denunciarem o caos, a indiferença, são eles que apitam como um timer avisando que a relação está assada, pronta, passada, queimada, é o momento em que você evita ir ao banheiro pois sabe que vai encontrar lá aquela maldita escova de dentes que não é tua. O terceiro momento em que estes ruídos aparecem (e é essencialmente este que mais aparece no espetáculo) é quando estes sinais começam a tomar conta de sua casa, de você, mas não presentes: ausentes. O silencio indica que ali deveria haver um ruído. É quando você entra no banheiro e sente que falta uma escova de dentes.

A falta destes ruídos indicam que você está definitivamente sozinho, a espera de novos ruídos, este vácuo mostra que você perdeu, e aí meu irmão, não adianta abraçar-se a um trabuco esperando a morte, ou caçar seu desafeto por aí, fazer artesanato, arranjar um emprego, matar, fugir…a única coisa razoável a fazer é providenciar bom estoque de Chat Baker porque é certo que os ossos doerão o inverno todo.

(Márcio Américo)

 

 

“Aos ossos que tanto doem no inverno

O espetáculo tem um inicio engraçado. O assaltante encontrando o assaltado na própria casa pra lhe devolver a carteira. Os minutos vão passando, as conversas começando, o riso se tranformando em um sorriso nervoso e quando você  percebe a mudança seus olhos já estão cheios e as luzes se apagam para os aplausos. “Carlos” e “Chico”, cada um com sua dor, acabam dividindo a mesma no final.

Uma peça de homens, sobre homens, mas que trata de forma simples e profunda a dor e a solidão humana.

Parabéns aos atores: Mário Bortolotto e Nelsinho Peres;

Parabéns ao dramaturgo Sérgio Mello;

Parabéns a diretora Soledad Yunge;

Parabéns a luz do Marcelo Montenegro”.

(Samya)

 

 

“E ontem eu assisti à peça “Aos ossos que tanto doem no inverno” do querido Sérgio Mello, com o Mário e o Nelsinho e direção da Soledad, e foi demais. Mais uma vez, Soledad conduzindo lindamente o mergulho dos atores. Mário e Nelson, numa gangorra emocional que não tem alívio, presos e unidos na viuvez mais cruel que o teatro nacional já apresentou. Uma peça cheia de silêncios e suspensões, bem como eu gosto.”

(Patricia Leonardelli)

 

 

“Tem erros que não se apagam com corretivo, curativo e nem com tempo. Tem dor que não se cura, que não se engana com comprimidos e que só alivia quando a gente se alimenta dela.  Tem ferida que não fecha, não cicatriza com pomada, que inflama e infecciona com o tempo. Quatro anos. Quatro anos é muito tempo? Eu lembro dessa pergunta em “Paris, Texas”. Quando os irmãos Walt e Travis estão voltando pra casa, no meio do deserto, parados esperando o trem passar, à beira de uma ferrovia, Travis fica sabendo que seu filho irá fazer oito anos e que ele esteve ausente nos últimos quatro. Então ele pergunta: “Quatro anos é muito tempo?”. “Para um garotinho de oito é. É metade da vida dele!”, responde Walt. Quatro anos é muito tempo para um garotinho de oito anos. E pra dois sujeitos com mais de quarenta? Pra dois sujeitos que nunca se viram e se alimentaram das mesmas dores nos últimos quatro anos. Quatro anos e um encontro improvável. Um final imprevisível. O abandono, a dor, a solidão, o tempo, o perdão. Tudo ali em menos de uma hora. Dois sujeitos de um talento sem igual. Um texto que te faz rir pra no segundo seguinte enfiar a espingarda na tua fuça e te perguntar “tá rindo do quê?”. Os dois sujeitos são os amigos Mário Bortolotto e Nelsinho Peres. O texto é do amigo, poeta e agora dramaturgo Sérgio Mello, o  Sam Shepard dos trópicos, acho que essa definição é do Marião! “Aos ossos que tanto doem no inverno” mexe com essas dores que não têm cura e mesmo que não fiquem expostas juntam mosquitos, inflamam e infeccionam. Quatro anos no inverno é muito tempo e embora a solidão não escolha idade fica mais doída aos ossos com o passar dos anos, com a vida se encaminhando para os quarenta e cinco do segundo tempo e você já não sabe se torce para uma prorrogação ou quer que tudo termine ali mesmo no apito final do tempo normal.

Ah, não bastasse isso ainda tem a direção. Aprendi com o Bortolotto que o bom diretor e a boa direção são aquelas que não se evidenciam, aquelas que são feitas de sutilezas e não de grandes “invenções”. O teatro é feito de atores e texto. O diretor é fundamental e importante na concepção do trabalho, mas não precisa aparecer mais do que os elementos principais. E a direção do espetáculo é sob medida e de responsabilidade de Soledad Yunge, que soube explorar o talento e recursos dos atores e do texto, sem querer aparecer mais por isso e ainda soube expor a sensibilidade, que muito provavelmente só uma mulher poderia fazer,  que o texto aborda sem cair no clichê e no piegas. Algo raro nos dias de hoje”.

(Alessandro Bartel)

 

 

Aquele vento frio entrando pela fresta da Porta

Um dia o Sergio me disse que tinha um texto pra teatro, falou de um cara com uma carabina na mão, de Chet Baker rodando no CD player. Naquele momento não imaginei a que ponto o Poeta era capaz de chegar ao falar das dores do amor, da incapacidade de lidar com a perda, do fim da promessa de felicidade que é um relacionamento.
Melancolia é o que mais me ocorre quando penso nos escritos do Sergião: praias em fins de semana nublados, velhinhos caminhando lentamente no calçadão, cachorros perdidos, essas coisas em que ninguém pensa com ternura. Ninguém que não seja um Poeta como o meu Brother é, que fique claro.
Os personagens da peça tem que lidar com uma situação limite, que se desenvolve num clima de filme noir. Gosto principalmente do ritmo da peça, do encadeamento de pequenas revelações, a “carpintaria” do texto, a sensação de que o autor vai ao cinema com olhos de expectador do corujão. O Mario e o Nelson em cena é foda, são duas escolas de interpretação diferentes que se complementam. O contraste do físico dos personagens é uma escolha inteligente do autor, o mais forte fisicamente está mais fraco no psicológico e vice-versa. A direção da Soledad comprova o grande talento dela, coisa já sabida por mim e por quem viu “Num dia Comum”.
Acho importante dizer que a Dani está entrando nas produções teatrais e isso é muito bom, temos muitos “artistas” por aí e falta gente competente pra viabilizar os trampos dos camaradas. Marcelo Montenegro é um operador de técnica impecável, elegante como seus Poemas. Chet Baker de trilha é sacanagem, não? Pra falar de perdas, o som do mais perdido trompetista do jazz da história.
Vá ver logo, porque como a Fernanda diz: “Teatro não é filme, não dá pra ver o dvd depois”.

(Pierre Masato)

 

 

“… Assistam mais uma grande direção de Soledad Yunge, que enaltece o trabalho dos atores mais uma vez. Bortolotto e Nelson Peres estão brilhantes em “Aos Ossos Que Tanto Doem no Inverno” de Sérgio Mello. Teatro Ruth Escobar (com uma infra de estacionamento e café do lado de fora muito boa) de sexta e sábado às 21h e domingo às 20h…”

(Laerte Mello)

 

 

(…)

Sábado fui assistir “AOS OSSOS QUE TANTO DOEM NO INVERNO”

Levei uma galera comigo.

Lá no Ruth Escobar.

Logo que você entra na sala há um cara tenso segurando uma arma com um longo cano que causa aflições. O cara espera algo e a platéia acaba adotando a espera.

Enquanto a platéia confusamente se acomoda e assimila o espaço, o ator, já presente em cena, majestosamente dá início aos próximos 50 minutos que prenderão o fôlego e surpreenderão cada pensamento do ingênuo público.

Não sei ao certo se são cinqüenta minutos, ou mais, ou menos… Sei que prende suas vísceras, a cada olhar reflexivo e a cada silêncio triste dos grandes atores no palco. Sei que nem percebemos o tempo passar. Sei que os grandes atores não poderiam ser ninguém menos, ninguém mais que Nelson Peres e Mario Bortolotto. Adequados, insubstituíveis, arrebatadores. Ambos com suas interpretações inebriantes e vozes aveludadas, nos transformam em títeres que sentem os detalhes de cada uma das emoções de Carlos e Chico…

Só respiramos quando Carlos respira e temos vontade de gritar junto ao desespero do Chico.

Os sentidos são explorados pelo cheiro da bebida espalhada no cenário, pela delicada iluminação, pela voz dos atores que vibra até sob a sola dos sapatos e causa rebuliço no sangue dentro das veias. A música, uma fantástica música, sai do rádio colocado na sala da história do Chico e, quando tocada, entra em nossos ouvidos como voz de mãe tentando nos consolar e atinge certeiramente o coração no peito como faca sem corte.

O texto é maravilhoso. Há genialidade nas piadas. E por cima das piadas há verdades melancólicas.

Dá uma vontade estranha e triste de pegar os dois no colo e amamentar e ninar. E só acalmar quando eles estiverem bem acolhidos.

Saímos da peça assim, completamente encantados pelas grandes atuações, pela energia dos dois juntos.

Somos tão maravilhosamente absorvidos que não temos forças para comentar. Tudo que há para ser dito já está logo ali, no palco, na altura de seus pés, uma história que poderia estar acontecendo ali no chão da sua sala. E você é um espectador mudo. Um quidam que tem a chance de sentir todos aqueles conflitantes sentimentos.

Não vou contar nenhum dos detalhes da história ou da peça, pois cada um desses detalhes vale a pena ser vivido dentro daquela sala pequena e incrível do Ruth Escobar. Vendo aqueles dois maravilhosos mágicos no palco.

Carrego desde sábado um aperto doído mas confortável e saudosista no peito.

Vou assistir à peça muitas vezes mais.

Vou sentí-los muitas vezes mais.

Vou carregá-los nas memórias e nos sentimentos muitas outras vezes.

E acho que você deveria fazer a mesma coisa. Porque Nelson Peres e Mario Bortolotto sempre são imperdíveis. E agora eles estão juntos.

Mas corre, porque vai só até 27/04.

Há muito mais a ser dito, mas isso estraga a surpresa.

E mesmo que eu tentasse não conseguiria passar a overdose de sensações e sentimentos que eles causam em cada um da platéia.

(Fernanda Bello)

 

 

“Uma história de amor.

Já assisti algumas vezes. Não só porque adoro o Mário e o Nelsinho e curti muito o texto do Sérgio, mas porque sou uma pessoa distraída e dispersiva ou observadora demais. Eu preciso assistir muitas vezes. E talvez também porque eu goste da dor. Definitivamente sim. Ela me faz sentir viva. E sem dúvida é uma peça doída. A execução cirúrgica dos atores te deixa em suspensão o tempo todo. A respiração cessa durante os 60 minutos de peça como se você estivesse submerso. Tensa. O texto brilhante te permite subir a superfície de vez enquando pra pegar um pouco de ar antes que o Carlos e Chico te afundem novamente. E eles vão fundo numa atuação precisa da solidão, do desprezo, do abandono, da angústia e da saudade. Escrever sobre a peça não é tarefa fácil, qualquer palavra mal colocada pode estragar a surpresa, o que eu posso dizer é que é Aos ossos que tanto doem no inverno é como um soco forte bem na boca do estômago, você fica sem ar, e sem palavras.”

(Carolina Garcia)

 

(…)

AOS OSSOS QUE TANTO DOEM NO INVERNO

Ontem à noite fui ao Teatro Ruth Escobar para assistir ao espetáculo Aos ossos que tanto doem no inverno, de Sérgio Mello e dirigido por Soledad Yunge. No elenco estão os atores Mário Bortolotto e Nelson Peres. Foram 50 minutos de uma surpresa atrás da outra, ou melhor, de uma porrada e de um afeto atrás do outro. Logo na entrada, a primeira: ao som de Chet Baker – de doer até o chão da alma – um homem de olhar esfalfado, ali, postado em estado de alerta com a sua inseparável espingarda enferrujada; aguardava sabe-se lá o quê – tudo isso enquanto a platéia ainda se acomodava pelas cadeiras da Sala Miriam Muniz. O cenário: uma sala com um tapete azul royal, um poltrona bege esganiçada, um baú de apoio para o aparelho de som, um telefone, diversas latinhas vazias de cerveja, garrafas de uísque e pilhas de cd´s. Do lado oposto da poltrona, a solidão de um banquinho de pianista. Esse homem é Chico (Mário Bortolotto) um desempregado na faixa dos quarenta anos, portador do seu próprio auto-abandono. A trama começa a ser construída quando o outro elemento, Carlos, (Nelson Peres) também na mesma faixa etária, bate à sua porta. Neste momento, a vida nos brinda com um absurdo sem tamanho – aqui outra surpresa – Carlos é o ladrão que roubara Chico na rua e resolve entregar o produto do roubo, ou seja, a carteira do outro. Chega a ser risível, porém o riso não é o vizinho de parede do drama? Aliás, ambos não caminham lado a lado? E até compartilham silêncios e a própria miséria? Para Schopenhauer, o riso é uma manifestação pessimista diante da dramaturgia absurda que é a vida. Que história mais absurda é essa, meu Deus! Um ladrão arrependido! Que história é essa, onde dois sujeitos perdidos numa dor profunda celebram suas perdas e suas fraquezas? Muita coisa acontece neste ínterim: revelações, comiseração e outras coisas que obviamente não vou relatar aqui. Todavia não posso omitir o que senti ao assistir a este belo trabalho. Aos ossos que tanto doem no inverno mexe com os sentidos da platéia; inalamos o odor onipresente de cerveja e uísque; somos abarcados por pausas e até pela respiração dos atores; a força precisa das palavras é demolidora de clichês e reveladora de uma vida sem máscaras. Embora o tema da peça seja pesado, saí do teatro com a gostosa sensação de que o tédio produz bons frutos.

(Paulo Netho)

 

 

… Como sempre, como sempre…

Sexta fui ver os amigos num puta espetáculo. A estréia do Sergio Melo como dramaturgo. Numa sala pequenininha, no Ruth Escobar. Um grande texto. Mario Bortolotto e Nelsinho Peres dividindo a cena com, antes de mais nada, muita dignidade. 

E com maestria!

É, meu amigos têm dignidade. Estão ralando o peito até hoje, há décadas, sem trégua e com pouca água. De que jeito eles fazem isso? Fazendo o teatro que deve ser feito. Só por isso.

Vi o Marcelo Montenegro, lá atrás, operando som e luz, como sempre.

Incansável.

O Marcelo tem algo de legião estrangeira.

Só pode ser.

Com uma dose precisa de Chet Baker ele matou a charada.

A Soledad Yunge? Resoluta.

Foi na jugular.

Ponto.

Torço pra que eles fiquem muito tempo em cartaz e muitas e muitas pessoas possam ver e ouvir o que têm ali.

Por quê?

Porque é muito importante.

Oras!

Estou de volta a minha mesa.

Hoje foi dia de pagar o aluguel.

Olho lá fora e o sol parece estar bem ardido.

Quase sempre está”.

(Jarbas Capusso)

 

“Ontem naquela sala do Ruth Escobar falou-se muito em dor. Dores físicas, que em verdade eram belas alegorias. (…) Então pude ver os atores: o Mário e o Nelson. Tão bonitos os dois. Os arranques do Mário são extremamente poderosos (sempre foram) e o Nelson contém, compacta a interpretação e corre dentro da própria cabeça.”

(Fernanda D´Umbra)

 

 

“Alguns momentos a gente se diverte (e muito) com a situação, mas com o decorrer da peça a gente vai levando leves tapas na cara até chegarmos ao soco no estômago final.”

(Chico Ribas)  

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