Aos ossos que tanto doem no inverno

Texto extraído do meu blog Escuta Zé (de 01/05/2008). Escrito de forma primorosa pelo Mário Bortolotto sobre o último dia da temporada no Teatro Ruth Escobar. Não haveria outra forma de descrever o significado desta peça e o que ela representou pra gente. Me emociono até hoje quando releio.

” NOSSOS OSSOS QUE DOEM SEMPRE

Não. Não tem a ver com velhice. Embora os dois personagens já tenham passado dos 40. É é claro que nós não somos dois garotos. Não é a toa que o Sérgio escreveu os personagens pra mim e pro Nelsinho. Somos dois caras com os ossos doendo, né, Camarada? Somos dois caras com trajetórias parecidas. Dois sujeitos que sempre investiram em suas vidas profissionais de um jeito torto, radical, sem concessões. E se chegaram a conseguir algo que pode ser respeito, admiração, inveja, rancor ou o que quer que seja, foi de um jeito bastante espontâneo. Nós nunca forçamos a barra. Somos dois sujeitos que acreditavam que a vida tava meio que bem acabada, né? Com casamentos, filhos e um olhar quase sereno sobre a pilha de pratos. Mas aí meio que na mesma época coincidentemente aconteceu o sentimento de derrota, de perda inexorável e nossas vidas sob escombros. Aí a gente se encontrava de madrugada nos bares e ficava conversando sobre tudo. Você lembra, né, Nelsinho? A gente conversando até de manhã e se embriagando é claro, que era um jeito de anestesiar a dor nos ossos. A conversa e a bebida. Nossas trajetórias parecidas e o encontro inevitável no palco nesse texto tão bonito e oportuno (pra nós, é claro ou você acha que não estamos de algum jeito falando de nós mesmos quando estamos lá?) do Sérgio. Então é por isso que acontece toda a sinergia? Eu diria que é porque os nossos ossos doem tanto quanto os dos personagens.

E é por isso que nós entramos ontem naquele teatro e fizemos o nosso espetáculo pra 5 pessoas. Pois é. A última semana da temporada e tinham 5 pessoas na platéia. Estamos falando de um mundo longe de qualquer glamour. O nosso e o dos personagens. Então tinha 5 pessoas. Tinha o Carcarah, o Heitor e outras três que eu não conheço. E a gente fez de um jeito visceral, apaixonado, destruidor, em carne viva, com “sangue no zóio”, com pau na mesa ou como preferirem. Porque os nossos ossos doem de um jeito que ali na solidão daquele teatro de arena com Chet Baker tocando, é que sabemos que os nossos olhares desesperados buscam uma serenidade que não quer mais ser encontrada. Porque as nossas trajetórias são tão parecidas, os ossos doem de um jeito tão foda que vai ser impossível aplacar essa dor.

Porque nós não somos de brincadeira. Porque já passamos dos 40. Porque os ossos doem. Porque não se deve brincar com sujeitos tão calejados como nós dois, né, Nelsinho?

Então não esperem menos do que isso da gente. Nós não sabemos fazer pouco… “.

(Mário Bortolotto)

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