QUERÊNCIA da obra do genial Cornélio Pires – Últimas apresentações. Só até o fim desse mês as sextas e sábados a meia noite no Teatro Cemitério de Automóveis, rua Frei Caneca, 384.

Eu acredito em anjos. É verdade. Mas na minha humilde visão, esses anjos andam ou andaram por aqui disfarçados de gente comum. Eles fazem um bem danado pra gente. Esse bem não é aquele bem que entendemos meio que naturalmente. É um bem disfarçado. Sabe aquele amigo seu que você nunca vai abrir mão da sua companhia? Essa é uma das formas que eles surgem no seu caminho. Eu tive e tenho o privilégio de ter ou já ter tido vários deles na minha companhia. Um deles é esse tal de Cornélio Pires. A nossa amizade é anacrônica. Ele morreu três anos antes de eu nascer. Mas deu um jeito de me fazer companhia. Me jogou no colo uma boa parte da sua obra pra que eu pudesse caminhar por aí. Fazendo bem pra mim e pra todos aqueles que compartilham da sua obra.

Desconfie sempre do que te apresentam! Pode estar faltando alguma coisa…

Quando eu e o Lima, Roberto Gonçalves de Lima corremos atrás de pesquisar a obra do Cornélio Pires o que mais me chamava atenção era a dificuldade de se encontrar o seu trabalho. Até então eu conhecia só alguma coisa da sua genial obra (alguns poucos poemas espalhados por aí e principalmente na cidade onde ele nasceu e eu cresci, em Tietê SP). O que descobri, um pouco mais tarde, era que ele havia publicado algo em torno de 23 livros, sendo que a maioria, graças ao seu próprio esforço. Nós, eu e esse grande parceiro, o Roberto Lima, conseguimos emprestada parte de uma coleção (8 ou 9 livros) particular, guardada cuidadosamente pelo meu quase tio (não de sangue, de afeto), Clóvis Pasquali, corretíssimo  e querido cidadão tieteense, cuja casa frequentei em toda a minha infância e boa parte da idade adulta e tenho os seus filhos como meus irmãos. Sabendo da publicação desses 23 livros veio a enorme frustação de jamais ter encontrado o restante. Enquanto mergulhávamos na obra e passagens da vida do Cornélio, descobrimos que, apesar de uma aceitação popular impressionante, foi objeto de uma forte rejeição ou desprezo por parte dos intelectuais e “artistas mais nobres”. Nós acreditávamos piamente que conseguiríamos levar a peça Querência (que carregamos até hoje viva pelo prazer que é capaz de proporcionar) a ser apresentada na grande maioria das universidades, pois quem sabe, poderíamos ao menos tentar saldar parte da dívida da nossa elite intelectual em não reconhecer a genialidade do escritor enquanto vivo. Éramos “méritocratas” sinceros e acreditávamos em “boas intenções”. Perda total de tempo e de esforço. Raramente conseguimos entrar no meio acadêmico. Até hoje, 18 anos depois de criada a peça!!! Acho até que algum incauto pode nos achar pretensiosos, ou rir da nossa cara alegando que a nossa peça deve ser uma porcaria ou algo do tipo. Porém, o que considero bastante inadmissível é a sua ausência, ao menos para conferir a genialidade desse que foi um dos maiores escritores brasileiro que conheci em toda a minha vida. PONTO.

Querência e Borrasca. Cornélio Pires e Mário Bortolotto me colocando no prumo!

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QUERÊNCIA da obra do Cornélio Pires, comigo, com Fábio Brum ou Diego Basanelli trilhando ao vivo, até o final desse mês às sextas e sábados a meia noite
BORRASCA do Mário Bortolotto, sextas e sábados às 21:30h e domingos às 20:30h comigo, Mário Bortolotto, Carcarah, Gabriel Pinheiro, Francisco Eldo, Pablo Perosa e Walter Figueiredo (que tem feito a técnica). Rodiziando dois a dois a cada espetáculo.

Desde junho estou todas as sextas e sábados vivendo cenas que só falam de amor e dos seus sentimentos irmãos. Não falho nunca. Posso estar com sono, com febre, com fraqueza, atormentado por brigas, alegorias, cismas… E, pelo menos uma vez por semana também, chego mais cedo pra também me colocar em cena como um cara chamado Gabriel que também fala de amor e dos seus sentimentos irmãos. Isso me lava a alma. E choro sempre nas mesmas cenas. E choro como ator servindo a uma peça. E choro de verdade como que misturando as minhas dores com as dos personagens. Represento e tendo dominar isso. Mas vivo também. E percebo que boa parte dos que se sentam ali também estão dispostos a chorar com as suas próprias dores; se não por isso, pra que então? Fico pensando o que seria da minha vida hoje se não tivesse chegado até aqui dessa forma torta. E nunca consigo chamar isso de profissão, pura e simplesmente. É bem mais que isso. É um compromisso com a minha vida e com a vida dos outros. Um compromisso com o que temos de mais humano e ridículo. Sim, sou um cara ridículo que não se importa em ser chamado como tal. Sou um fracassado que também não se importa em ser entendido sob essa forma tacanha de compreensão. Meio que uma criança com vontade de brincar com a minha própria humanidade. Que se recusa terminantemente a me transformar num adulto respeitado por essa sociedade doente.