Poderia ser um pouco diferente. Só um pouquinho.

Olho pra uma espécie de nada. Sabe o que é isso? Uma espécie de nada? Um nada que posa como se posasse para uma fotografia, bem na minha frente, e que sequer chega a sorrir pra mim. Parece que quase tudo que tava por vir, já veio. E sobrou pouco. Uma vez perguntaram ao Vittório Gassman se a vida teria que ser eterna. Ele respondeu que seria insuportável viver eternamente. Mas por outro lado, a duração de uma vida é bem pequena. Deveria durar o dobro, segundo ele, uma para ensaiar, e outra pra viver. Não sei não, pra mim, o dobro também parece muito tempo. E a Simone de Beauvoir, numa entrevista feita na década de setenta, disse que a melhor fase da vida é aquela entre os trinta e cinqüenta anos de idade. Que até os trinta, as aflições adolescentes atrapalham demais; depois dos cinqüenta, a perspectiva do fim vira realidade, e deixa-se de lado aquela sensação de que a vida não tem fim. À vida, se apresenta o limite, a ideia de finitude. Concordo mais com a Simone do que com o Gassmann.  Mas que se foda isso tudo. Estou com 45 anos e me sinto bem mais velho que isso. Ando sem o menor saco pra maioria das coisas. Não vislumbro novas realizações. Dos meus trabalhos e de tudo que fiz até aqui, tenho o maior orgulho. E acho que seria um cara um pouco mais feliz hoje, se pudesse estar sobrevivendo com as coisas que gosto de fazer. Aqueles cinqüenta minutos em que a gente se diverte pra caralho, né meu amigo Mario? Ao lado desses personagens criados por bons autores. Pra mim, tem sobrado pouco. E sobrar pouco, se transformou numa pressão filha da puta. Eu nunca quis muito, é verdade, no que se refere àquelas ambições vazias de grana e de reconhecimento hipócrita e vazio que a minha profissão poderia ter me oferecido. Acho que tem gente que nunca vai conseguir entender isto. No fundo, acho que eu nunca acreditei que ser ator, do jeito que as coisas se apresentaram, seria uma profissão. Ser ator é outra coisa. Mais que uma profissão, entende? Só acho que eu merecia poder bancar a criação dos meus filhos, mesmo sem oferecer aquele monte de bobagens que as pessoas acham que devem proporcionar aos filhos e ter muito orgulho disso. E que eu merecia também subir num palco de teatro quantas vezes fossem necessárias, com gente suficiente na platéia; pra me divertir um pouco mais ainda, nesse tempo que a duração da vida já é finita. Dormir um pouco mais tranqüilo, sem esse maldito medo do dia seguinte. Passar todas as próximas manhãs ao lado dos meus filhos. Todas as próximas tardes ensaiando ou reensaiando. Todas as próximas madrugadas conversando com os amigos e um pouco mais feliz por ter participado de algumas belas cenas de teatro. Hoje, eu não consigo mais ler uma porra sequer de uma dessas notícias sobre a corrupção daqueles ministros e deputados que foram colocados lá, na porra deste poder de merda, por aqueles que até há alguns anos atrás eu acreditei que pudessem ser honestos com a própria vida e com os seus discursos. Quanta ingenuidade.  Ainda bem que, ao meu lado, sobraram alguns verdadeiros amigos. E que, junto com os meus filhos, ainda me seguram nas cordas, depois de beijar a lona. O meu nariz tá sangrando bastante e boa parte do meu rosto já tá deformada por causa de uma pá de hematomas e outra pá de feridas que não saem com esses produtos vendidos pra tirar maquiagem. São feridas e hematomas que não surgiram em cima de um palco.

(de 23/05/2007)

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