Mais um edital…

Chega a ser engraçado a quantidade de editais que tive a oportunidade de participar, seja como proponente, ou como parte dos projetos. Chega a ser triste o meu pessimismo diante de tais editais. Se o meu trabalho dependesse destes tais editais, acredito que teria feito no máximo uns dois ou três trabalhos em mais de 30 anos trabalhando com teatro. Isso daria um debate enorme. Já passei por coisas absurdas, as quais não tenho o menor saco de discorrer sobre.

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A importância do que vivi…

Gostaria de pedir aos amigos e profissionais que dividiram comigo os meus momentos no teatro e tenham algum material, tipo, fotos antigas, textos sobre as peças, observações sobre os trabalhos, que encontrarem erros nos créditos, trechos filmados, e o que mais for possível, me enviassem estes materiais. Estou curtindo muito montar esse blog site e acho que é uma forma bacana de documentar tudo que vivi e dividi com vocês. Tenho muito orgulho desta história toda e faço questão de deixá-la registrada. Simplesmente para que não se perca…

Momentos Memoráveis

Com o grande Zé Carlos Machado - Antes de apresentarmos "Postcards de Atacama" na Mostra de Férias do Cemitério de Automóveis - Centro Cultural São Paulo (2005)

A mina é foda…

Ontem eu fui no Sesc Consolação ver o show da minha irmã, Fernanda D’Umbra. Da super banda Fábrica de Animais. Eu acho um saco isso: toda vez que vou escrever algo sobre ela, só consigo encher a senhorita D’Umbra de elogios. É foda. Por outro lado, já ouvi falar que se você deseja escrever algo que mereça ser lido, o primeiro passo é tentar sair de mãos dadas com a verdade, com as coisas verdadeiras que você vê, ouve e vive. Então, meu cumpadre, sinuca de bico! Eu não consigo falar da mina e não babar ovos, não rasgar elogios. Sentei-me naquela platéia como se senta pra assistir alguém da família. Uma puta de uma torcida pra que ela exploda com tudo. E os meus olhos nunca se decepcionam com a senhorasenhorita D’Umbra. Ela sempre explode com tudo. Fila da puta de boa essa mulher. E eu fico muito envaidecido de ser amigo dela: – Olha gente, essa mina aí… é minha amiga, e vira e mexe, a gente mata uma pá de salinas juntos. E a gente conversa pra caralho sobre assuntos deliciosos de se conversar. Mó bróde minha. Mó sister minha. E ainda por cima, ela é humana (juro pra vocês!). Eu garanto, é mesmo um ser humano que fica andando pra lá e pra cá em cima do palco. Daí, fico olhando pra ela lá da platéia, e se torna impossível não se lembrar dos olhos das personagens que ela interpreta. Da felicidade e honra de já ter estado em cena com esse monstro. Foda. Muito foda. Puta orgulho de sair do show carregando a sua mochila até a Praça Roosevelt. Daí você pode dizer, e eu lhe dou esse direito e toda razão do mundo: – “Ah, Nérsu, você só torce por coisas que não te decepcionam”. Tem razão, algo como torcer pelo São Paulo Futebol Clube. Nunca decepciona.

Mas a grande verdade, é que essa mina nunca vai precisar da torcida de ninguém, muito menos da minha. Ela pode jogar contra o Boca Juniors, lá na La Bombonera, com a casa cheia, que vai explodir com tudo. A mina é foda, eu lhe asseguro.

Um pouco de Cornélio Pires…

O Beijo

Um dia eu vi meu bem, junto do altar,

chegar-se ao Cristo nu crucificado

e aos seus pés frios beijos dar…

Em isso vendo, eu fui muito apressado

e sobre os pés de Deus, ali, curvado,

com a boca colada no lugar

Em que meu bem havia então beijado,

os pés do Cristo nu pus-me a beijar,

cheio de afeto e cheio de respeito.

Depois eu me retirei satisfeito

por me ter parecido aquele ensejo…

Pensaram que eu beijei os pés do Cristo

as pessoas que ali me tinham visto…

Mas não beijei os pés… beijei o beijo!

 

CORNÉLIO PIRES

(última cena da peça Querência)

Um janeiro diferente…

Em janeiro passado, a esta hora, eu estava decorando o texto da peça Corações Under Rocks do Márcio Américo, feito louco. Nesse janeiro, estou, também feito louco, tentando organizar boa parte das coisas, das “grandes coisas” que fiz nesse longo tempo como ator (pois é, 30 anos na lida). É um trabalho árduo, esse de tentar reunir documentos, materiais de peças, nomes, fotos, textos, etc. Sem contar esse labirinto típico da linguagem da informática, que a gente tem que aprender de uma hora pra outra. Os truques do computador. Parece que não tem fim. Cada hora acho um lance novo. Mas o mais maluco, e saboroso também, é a viagem que a cabeça se submete. Aqui, sentado numa escrivaninha, no quarto da minha casa, fico me deparando com fotografias maravilhosas, com as lembranças dos comentários dos amigos que sempre apareceram pra dividir os melhores lances da rodada, etc. Vem tudo junto: cenas de coxia, de palco, piadas, ensaios, manias, nervosismos, viagens, ressacas, cafés da manhã, jantares, banheiros, platéia cheia, platéia vazia, falta de glamour, os drinks vitoriosos depois das encenações. Tem a parte chata também, que desperta do nada. Pois é, meu irmão, não é sempre que nos deparamos com o melhor e o mais agradável da vida. Mas essa parte, se resume, felizmente, a alguns poucos episódios, geralmente criado por algumas poucas pessoas, totalmente “fora da casinha”. Prefiro pular essa parte. Mas eu lhe asseguro, uma goleada de coisas boas sobre coisas ruins. Olhando tudo isso, eu só posso dizer: Porra cara, puta vida bacana que eu vivi fazendo o que eu mais gosto de fazer! Este ano também promete.

” Nossos ossos que doem sempre “

Estou organizando boa parte do material das peças que fiz ao longo desse tempo todo. Venho montando esse blog aos poucos. Quando comecei a bisbilhotar o material da peça “Aos ossos que tanto doem no inverno”, encontrei esse texto escrito de forma primorosa pelo  meu amigo e irmão, Mário Bortolotto, sobre o último dia da temporada que fizemos no Teatro Ruth Escobar em 2008.

Não haveria outra forma de descrever o significado desta peça pra gente. Me emociono até hoje quando releio.

” NOSSOS OSSOS QUE DOEM SEMPRE

Não. Não tem a ver com velhice. Embora os dois personagens já tenham passado dos 40. É é claro que nós não somos dois garotos. Não é a toa que o Sérgio escreveu os personagens pra mim e pro Nelsinho. Somos dois caras com os ossos doendo, né, Camarada? Somos dois caras com trajetórias parecidas. Dois sujeitos que sempre investiram em suas vidas profissionais de um jeito torto, radical, sem concessões. E se chegaram a conseguir algo que pode ser respeito, admiração, inveja, rancor ou o que quer que seja, foi de um jeito bastante espontâneo. Nós nunca forçamos a barra. Somos dois sujeitos que acreditavam que a vida tava meio que bem acabada, né? Com casamentos, filhos e um olhar quase sereno sobre a pilha de pratos. Mas aí meio que na mesma época coincidentemente aconteceu o sentimento de derrota, de perda inexorável e nossas vidas sob escombros. Aí a gente se encontrava de madrugada nos bares e ficava conversando sobre tudo. Você lembra, né, Nelsinho? A gente conversando até de manhã e se embriagando é claro, que era um jeito de anestesiar a dor nos ossos. A conversa e a bebida. Nossas trajetórias parecidas e o encontro inevitável no palco nesse texto tão bonito e oportuno (pra nós, é claro ou você acha que não estamos de algum jeito falando de nós mesmos quando estamos lá?) do Sérgio. Então é por isso que acontece toda a sinergia? Eu diria que é porque os nossos ossos doem tanto quanto os dos personagens.

E é por isso que nós entramos ontem naquele teatro e fizemos o nosso espetáculo pra 5 pessoas. Pois é. A última semana da temporada e tinham 5 pessoas na platéia. Estamos falando de um mundo longe de qualquer glamour. O nosso e o dos personagens. Então tinha 5 pessoas. Tinha o Carcarah, o Heitor e outras três que eu não conheço. E a gente fez de um jeito visceral, apaixonado, destruidor, em carne viva, com “sangue no zóio”, com pau na mesa ou como preferirem. Porque os nossos ossos doem de um jeito que ali na solidão daquele teatro de arena com Chet Baker tocando, é que sabemos que os nossos olhares desesperados buscam uma serenidade que não quer mais ser encontrada. Porque as nossas trajetórias são tão parecidas, os ossos doem de um jeito tão foda que vai ser impossível aplacar essa dor.

Porque nós não somos de brincadeira. Porque já passamos dos 40. Porque os ossos doem. Porque não se deve brincar com sujeitos tão calejados como nós dois, né, Nelsinho?

Então não esperem menos do que isso da gente. Nós não sabemos fazer pouco… “.

(Mário Bortolotto)

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