Como nascem algumas peças de teatro, pelo menos pra mim

Café do Bixiga, acho que em fevereiro de 1995, eu tomando um Fundador e o Robeto Lima umas quinze cervejas… Porra, ali era o nosso lugar. Sala das principais decisões do Grupo Necas. Durante anos… Eu gostava de me sentar na mesa do canto do fundo. De repente, o Lima manda essa – Você gosta do Cornélio Pires? Isto, depois de muita conversa sobre o significado da nossa última montagem, Fausto, comigo e com o nequiniano Gustavo Engracia no elenco. Eu já havia ouvido falar muito dele… O Cornélio é de Tietê, onde eu passei boa parte da infância; da adolescência e da idade adulta também. No ato, me peguei com uns 12 ou 13 anos, ao lado de um dos meus melhores amigos da infância, o Marcelo Pasquali, o Tigrão, colando chicletes de hortelã mastigados e esverdeados no nariz do busto do Cornélio da Praça da Matriz. Ficava ali, o busto, sorrindo e olhando pra gente, cheio de secreções escorrendo do nariz. Brincadeira totalmente sem graça e que divertiu a gente por anos. Meninos tem dessas coisas. Ver o Cornélio resfriado divertia pra caralho a gente.

Eu conhecia um ou dois poemas dele, só isso – vamos ler, e se a gente gostar, a gente faz um monólogo e bota em cartaz num teatrinho qualquer, numa segunda ou terça-feira… Então, devoramos uns oito livros do Cornélio, que foram emprestados pelo pai do Tigrão. Eu tinha me separado de uma mulher que eu adorava, depois de quase nove anos muito legais juntos… Eu ganhava um salário bom, eu morava muito bem num apê de um dormitório, eu tinha um fusquinha bege todo destruído, ano 77. Mas eu tava triste. Triste pra caralho. Nunca fiz uma peça que não tivesse uma puta de uma ressonância em mim mesmo. Assim nasceu Querência. Pariu numa mesa de bar em meio a lamentos doídos sobre o amor. Lá, o nosso lado bem piegas. Deliciosamente piegas. A gente fala de amor. De infância. Do avô. Declamamos poemas nos equilibrando num bote sobre rio Tietê. Marchamos num lombo de cavalo. Ouvimos histórias de medo. De crimes passionais. Torcemos pra um cabra furar outro em nome da vingança. Até um lero com Deus a gente leva por lá. Na nossa Querência. Na nossa peça.  Que até hoje, continua a ressoar…

do Escuta Zé.

(26/07/2007)

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