De 12/10/2009, para os meus filhos…


O Capote, de N. Gogol (Teatro Ruth Escobar, 2002)

 

Grandes personagens formam grandes atores. Pequenos personagens de uma grande peça também. O teatro é algo vital: a necessidade de estar ali, naquele exato momento, a urgência de estar ali, dando a cara pra bater, de dizer exatamente aquilo que não dá pra cantarolar no banheiro de casa. Acho que eu não estou falando em construir uma carreira. Não, não é isso. Acho que estou falando de algo mais. Assim como a necessidade de se ter um cachorro, um gato, um passarinho ou um pé de pitanga no quintal. Transcende, percebe? Não é um mimo não. Não pode ser motivado pelo simples desejo de se tornar alguém mais importante do que você já é por fazer parte dessa droga toda que é esse mundinho de merda, desse delicioso mundinho de merda. Você já tem a sua importância. Todos nós temos. Isso já é du caralho, pode acreditar nisso. Você já se tornou esse algo a mais desde o dia em que você nasceu. Mais importante do que qualquer possibilidade de uma oportuna carreira profissional. Você já nasceu sob um contra luz âmbar. Eu não sei bem o porquê de estar sentado aqui falando sobre esse assunto. Só sei que estou tentando, sem sucesso, desde a hora que acordei, dar um telefonema pros meus filhos. Eles saíram e os celulares não atendem. Eu queria só falar com os dois e cumprimentá-los por eles já serem os personagens de uma grande peça. Queria cumprimentá-los por uma coisa que eles não têm a menor culpa. Por terem atravessado a catraca. Por já estarem do lado de cá. Iluminados pelo contra âmbar do por do sol. Estou falando tudo isso, só por ter me lembrado da resposta de um grande ator, quando perguntado sobre o fato de ter escolhido ser ator e não outra coisa qualquer: “Eu escolhi ser ator porque nunca quis virar gente grande. Assim, como ator, eu pude e ainda posso continuar brincando”. Eis um grande motivo. Acho que é por isso que eu liguei pros meus filhos, pra desejar exatamente isso. Porra, filhos, brinquem muito, brinquem pra caralho. Brinquem até a hora de bater o sono. E sonhem, sonhem muito. O resto? O resto nem é tão importante assim.

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4 pensamentos sobre “De 12/10/2009, para os meus filhos…

  1. amei as coisas por aqui. dá para te sentir por perto ali na coxia na ansiedade de entrar em cena, no prazer de entrar em cena. amigo, querido. saudades

    • Minha querida, ainda estou tentando reunir os registros dos trabalhos todos. Tem muito trabalho pela frente. Tem que ser aos poucos. Mas acho que vai valer a pena. Você faz parte desta história toda. Saudades de você também e das nossas conversas na coxia… Beijo enorme pra você.

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