De 09/07/2005, um pouco sobre a IV Mostra do Grupo Cemitério de Automóveis

Eu e o Jairo Mattos em Medusa de Rayban do Mário Bortolotto

(Centro Cultural São Paulo, 2005)

Férias no Cemitério

Fiquei por lá, na escada de cimento gelado que me servia de coxia. Preocupado em esconder o brilho reluzente que só os carecas conseguem emanar. Qualquer luz incidente sobre carecas reflete triplicada para quem quiser dar uma espiada nas laterais do palco. Nervoso pra caralho. Como sempre fico antes de entrar em cena. Sou um perfeccionista neuróticamente saudável. “Um artesão na arte… “. O público entrando, e, eu revendo entradas, saídas, textos, quantidade de passos para se encaixar nos focos. Me desesperei por diversas vezes quando ouvia o ranger das modernas dobradiças das portas dos camarins. Dancei, voei em cambalhotas. Bebi com Papai Noel. Comi o filho do Papai Noel. Negociei a vida do meu melhor amigo. Tentei matar meu melhor amigo e não consegui. Voltei pro foco pra dançar de novo. Cortei pintos de diversos tamanhos com tesoura podadeira e até castrei Deus. Odiei escravas brancas. Me senti o Moe dos três patetas. Meio de Niro tomando um táxi-driver. Enfim, uma semana em São Paulo na companhia dos meus amigos lá do Cemitério. Uma semana ensaiando e se divertindo pra caralho com o que mais gosto de fazer. Recebendo parabéns e conversando no bar da frente. Passando frio e discutindo figurino. Agradecido por estar por lá. Feliz também quando dei de cara com elogios do Douglas Kim, do Pierre Masato e da Fabiana Vajman. Tive até que discorrer sobre a minha vasta formação corporal. Du caralho! Estudei o movimento das corujas, dos morcêgos, de outros pássaros, dos homens e das mulheres de hábitos noturnos. Fui personagem de quadrinhos e ouvi música boa. Abracei o meu amigo Jack Daniels. Me emocionei e aproveitei também pra abraçar em cena o meu amigo Mario Bortolotto. Puta aventura maravilhosa.

Do Escuta Zé.

Como nascem algumas peças de teatro, pelo menos pra mim

Café do Bixiga, acho que em fevereiro de 1995, eu tomando um Fundador e o Robeto Lima umas quinze cervejas… Porra, ali era o nosso lugar. Sala das principais decisões do Grupo Necas. Durante anos… Eu gostava de me sentar na mesa do canto do fundo. De repente, o Lima manda essa – Você gosta do Cornélio Pires? Isto, depois de muita conversa sobre o significado da nossa última montagem, Fausto, comigo e com o nequiniano Gustavo Engracia no elenco. Eu já havia ouvido falar muito dele… O Cornélio é de Tietê, onde eu passei boa parte da infância; da adolescência e da idade adulta também. No ato, me peguei com uns 12 ou 13 anos, ao lado de um dos meus melhores amigos da infância, o Marcelo Pasquali, o Tigrão, colando chicletes de hortelã mastigados e esverdeados no nariz do busto do Cornélio da Praça da Matriz. Ficava ali, o busto, sorrindo e olhando pra gente, cheio de secreções escorrendo do nariz. Brincadeira totalmente sem graça e que divertiu a gente por anos. Meninos tem dessas coisas. Ver o Cornélio resfriado divertia pra caralho a gente.

Eu conhecia um ou dois poemas dele, só isso – vamos ler, e se a gente gostar, a gente faz um monólogo e bota em cartaz num teatrinho qualquer, numa segunda ou terça-feira… Então, devoramos uns oito livros do Cornélio, que foram emprestados pelo pai do Tigrão. Eu tinha me separado de uma mulher que eu adorava, depois de quase nove anos muito legais juntos… Eu ganhava um salário bom, eu morava muito bem num apê de um dormitório, eu tinha um fusquinha bege todo destruído, ano 77. Mas eu tava triste. Triste pra caralho. Nunca fiz uma peça que não tivesse uma puta de uma ressonância em mim mesmo. Assim nasceu Querência. Pariu numa mesa de bar em meio a lamentos doídos sobre o amor. Lá, o nosso lado bem piegas. Deliciosamente piegas. A gente fala de amor. De infância. Do avô. Declamamos poemas nos equilibrando num bote sobre rio Tietê. Marchamos num lombo de cavalo. Ouvimos histórias de medo. De crimes passionais. Torcemos pra um cabra furar outro em nome da vingança. Até um lero com Deus a gente leva por lá. Na nossa Querência. Na nossa peça.  Que até hoje, continua a ressoar…

do Escuta Zé.

(26/07/2007)

Assim, vai…

Felizes para Sempre com o Cesana

O meu querido e saudoso amigo Marcos Cesana com a Chris Couto em uma das cenas da peça "Felizes para Sempre".

Quase todas as peças já foram classificadas nas suas páginas… Faltam poucas. Por enquanto, a história ainda está sendo representada somente pelos títulos das páginas (aí do lado). O trampo continua… Para não ficar tão vazio, estou postando, pouco a pouco, algumas fotos no seus devidos lugares. Começando pelas lindas fotos do Edson Kumasaka tiradas durante a Mostra Cemitério de Automóveis de 2007: Ovelhas que voam se perdem no céu e Felizes para sempre.

Assim vai… até o “fim do que não tem fim”.


Por enquanto…

 

 

em “Nossa vida não vale um Chevrolet” com o grande amigo Mário Bortolotto – Teatro do Parlapatões (2008)

Pois é, devagar e sem pressa. Cheio de orgulho, no esforço de documentar grande parte do que pude viver e ainda vivo no teatro. Ou seja, registrar a maioria dos momentos e pessoas inesquecíveis com tive o privilegio de dividir o palco.

De 12/10/2009, para os meus filhos…


O Capote, de N. Gogol (Teatro Ruth Escobar, 2002)

 

Grandes personagens formam grandes atores. Pequenos personagens de uma grande peça também. O teatro é algo vital: a necessidade de estar ali, naquele exato momento, a urgência de estar ali, dando a cara pra bater, de dizer exatamente aquilo que não dá pra cantarolar no banheiro de casa. Acho que eu não estou falando em construir uma carreira. Não, não é isso. Acho que estou falando de algo mais. Assim como a necessidade de se ter um cachorro, um gato, um passarinho ou um pé de pitanga no quintal. Transcende, percebe? Não é um mimo não. Não pode ser motivado pelo simples desejo de se tornar alguém mais importante do que você já é por fazer parte dessa droga toda que é esse mundinho de merda, desse delicioso mundinho de merda. Você já tem a sua importância. Todos nós temos. Isso já é du caralho, pode acreditar nisso. Você já se tornou esse algo a mais desde o dia em que você nasceu. Mais importante do que qualquer possibilidade de uma oportuna carreira profissional. Você já nasceu sob um contra luz âmbar. Eu não sei bem o porquê de estar sentado aqui falando sobre esse assunto. Só sei que estou tentando, sem sucesso, desde a hora que acordei, dar um telefonema pros meus filhos. Eles saíram e os celulares não atendem. Eu queria só falar com os dois e cumprimentá-los por eles já serem os personagens de uma grande peça. Queria cumprimentá-los por uma coisa que eles não têm a menor culpa. Por terem atravessado a catraca. Por já estarem do lado de cá. Iluminados pelo contra âmbar do por do sol. Estou falando tudo isso, só por ter me lembrado da resposta de um grande ator, quando perguntado sobre o fato de ter escolhido ser ator e não outra coisa qualquer: “Eu escolhi ser ator porque nunca quis virar gente grande. Assim, como ator, eu pude e ainda posso continuar brincando”. Eis um grande motivo. Acho que é por isso que eu liguei pros meus filhos, pra desejar exatamente isso. Porra, filhos, brinquem muito, brinquem pra caralho. Brinquem até a hora de bater o sono. E sonhem, sonhem muito. O resto? O resto nem é tão importante assim.

O início, o meio e o fim de todas as coisas…

Carol Garcia

Este blog está em construção. As informações aqui contidas ainda estão em processo de elaboração e revisão. A idéia é da minha querida mais que amiga Carol Garcia… O que se deseja é registrar de forma unificada (documentar) os meus trabalhos como ator desde o início de tudo… Muito trabalho pela frente e pouquíssimo tempo. O pontapé inicial foi dado.

Muito obrigado, minha querida Carol Garcia.

Nelson Peres